A VIAGEM IMAGINÁRIA EM BUSCA DE SI

        POR ENTRE VOZES E SILÊNCIOS UM CERTO RELATO SE CONSTRÓI –

 

Marildo José Nercolini[1] - UFRJ

 

 

Somos seres plurais, múltiplos e não unos. Cada um carrega em si o outro, os vários outros que foram cruzando nosso caminho, aqueles já mortos que deixaram em nós seus traços, seus relatos; aqueles vivos que nos rodeiam ou com os quais vamos mantendo contato das formas as mais diversas. O entrelaçamento de culturas, em uma época em que tempo e espaço se diluem frente às novas possibilidades tecnológicas e as intensas migrações, possibilitam o contato com o diverso de uma forma muito intensa, acarretando transformações identitárias também intensas. A identidade perde seus limites fixos e não mais fica à mercê da nação, da família e da raça. Sou eu, mas sou o outro, carrego parcelas desse outro em mim.

As transformações constantes, seja na tecnologia, nas telecomunicações, na forma de trocas, na produção de bens culturais e econômicos acabam por tornar instáveis as identidades fixas, baseadas em noções espaço-temporais de etnia e/ou nação. Para Hall (1997) essa crise de identidade decorre, entre outros fatores, do deslocamento de estruturas e dos processos centrais das sociedades modernas, acrescidas pelo abalo no quadro de referências. Temos, então, uma identidade, dentro dos moldes modernos, descentrada, deslocada e fragmentada. Laclau (apud Hall, 1997) põe ênfase na questão do processo de deslocamento dos centros, a existência de uma pluralidade de centros de poder, não mais determinado por “causas” e “leis” únicas. A pós-modernidade vem caracterizada pela diferença, pelas articulações parciais dos elementos identitários, pelo deslocamento que desarticula as identidades, pois a estrutura dessas está em aberto. Ocorre uma erosão das identidades mestras, baseadas na posição de classe, na etnia e na nacionalidade.

O romance de Milton Hatoum, Relato de um certo oriente, permite-nos refletir sobre esse eu cindido e múltiplo. Retrata uma pessoa, cujo nome não é pronunciado, com a identidade esfacelada, marcada pelas vozes e silêncios de tantas outras pessoas, que volta para Manaus – “espaço da sua infância” – após vinte anos morando no sul (São Paulo, possivelmente), para reencontrar-se, ou seria para simplesmente encontrar-se, pois afinal, parece que nunca se teve nas mãos. A pretexto de escrever a seu irmão e comunicá-lo da morte de um ente querido, organiza um relato, que nada mais é do que uma tentativa de juntar os pedaços de sua identidade disforme.

O relato das memórias que habitam a narradora são acrescidos de outras vozes as quais ela dá vez. Ocupa lugar central no romance a busca de si, do lugar da infância, da cidade imaginária e das vozes, muitas vozes que habitam a narradora principal do romance. O resgate dessas memórias e dessas vozes se apresenta a ela como possibilidade para (re)construir sua identidade, situar-se em algum lugar, que parece ser o lugar nenhum, ou então, o lugar que somente a linguagem pode dar. O exercício da expressão narrativa é buscado como caminho para situar-se, tentar delinear-se, mesmo que esse delineamento permaneça difuso e móvel, sempre deslocável. O que nos remete a questão: é possível, hoje, o desenho de uma identidade com traços nítidos e precisos?

Cruzam-se pelo caminho diversos narradores. Com eles, ou melhor, através de seus relatos a narradora embarca em diversas viagens imaginárias, por terras distantes, por tempos diferentes, por culturas distintas. O homem nativo, como a empregada Anastácia e seu tio Tucumã, vindos da floresta com suas lendas e crenças, como a lembrar o narrador sedentário, profundo conhecedor das histórias e tradições locais. O observador errante que vem de longe, viajante inveterado, como o fotógrafo alemão Dorner, conhecedor de muitas culturas de diferentes regiões e países, ou mesmo Emilie e seu marido, vindos do Líbano, enredados pelas lembranças e histórias de sua terra natal.

São os relatos de viagens reais ou imaginárias, feitas por narradores sedentários ou errantes[2] que fornecem à narradora a senha para encontrar-se ao reencontrar o lugar de sua infância, a “cidade imaginária” e as muitas lembranças que a povoam.

O romance é construído sob um entrelaçamento de vozes narrativas. A narradora abre o relato, mas em seguida passa a vez/voz para seu tio Hankim, que por sua vez remete para o fotógrafo alemão Dorner, que repassa para o pai-avô libanês; no final a narradora fecha o relato tomando de volta a palavra. Uma rede narrativa se constrói em que múltiplas vozes são resgatadas, histórias são recriadas, espaços da infância reconstruídos pela memória. As falas saem feito um fluxo de memória, desordenadas, e as informações, tal pedaços de peças diversas, vão sendo juntadas para formar o mosaico familiar, os trajetos, o passado... memórias.

 

um certo oriente recriado pela memória e pela hibridação.

 

De um lado temos Emilie e seus irmãos Emílio e Emir – de família católica maronita –, que de Beirute, após passarem por Trípole e Ebrin, partem rumo a Manaus, passando por Chipre, Trieste, Marselha e Recife. Viagem por terras diversas, do Oriente Próximo ao velho continente para aportar num certo ocidente, num solo em que gentes provindas de diversas terras acabam por se encontrar e interrelacionar-se.

Por outro, o marido de Emilie, cujo nome não é pronunciado em nenhum momento do romance, também libanês, mas muçulmano, vem para o norte do país, atraído pelos relatos de seu tio Hanna, aqui instalado, cujas histórias fantásticas deixavam seus leitores “estarrecidos e maravilhados”, e envolviam

(...) epidemias devastadoras, crueldades executadas com requinte por homens que veneravam a lua, inúmeras batalhas tingidas com as cores do crepúsculo, degustavam a carne de seus semelhantes como se saboreassem rabo de carneiro, palácios com jardins esplêndidos, dotados de paredes inclinadas e rasgadas por janelas ogivais que apontavam para o poente, onde repousa a lua de ramadã (HATOUM,1989, p.71).

Enfim, construíam um imaginário em que se misturavam o exótico local, visto e recriado pela mente de um estrangeiro, e misturavam com as suas próprias fantasias e temas de sua cultura e crença.

Um certo oriente é mostrado através dos relatos da memória. O romance, indiretamente, problematiza a visão que o homem ocidental tem sobre os orientais, sempre reducionista e fruto, em grande medida, da criação de orientalistas europeus, especialmente franceses e ingleses, imbuídos da necessidade de afirmar a cultura ocidental-européia como hegemônica, superior em comparação a todos os povos e culturas não-europeus.

Os textos de orientalistas são fortemente marcados pelo preconceito antiárabe e antiislâmico, mostram um Oriente homogêneo, sem preocupar-se com a diversidade de costumes, ritos, lendas, práticas religiosas. O oriental, seja ele árabe, indiano ou libanês, maronita ou muçulmano, é tratado enquanto conjunto, nunca individualizado, sempre visto como estranho e bizarro, libertino e terrorista, venal e não confiável. Em verdade, os orientais raramente eram olhados, “a visão passava através deles, eram analisados não como cidadãos nem como povo, mas como problemas a serem resolvidos, ou confinados, ou (...) conquistados” (SAID, 1990, p. 213). Percebe-se no romance uma contraposição a essa imagem construída sobre o Oriente, a começar pelo próprio título. São relatos de um certo oriente, fruto, portanto, da criação da memória, a partir da experiência e histórias ouvidas e/ou vividas.

A pretensa homogeneidade oriental é colocada em xeque na própria constituição da família onde a narradora é criada. Os progenitores são provenientes de um mesmo país: o Líbano, cuja maioria religiosa é muçulmana, mas 25% da população é católica-maronita Enquanto Emilie e seus irmãos são maronitas, seu marido é muçulmano/islamita. Ambos praticavam a religião com fervor, mas haviam feito um pacto antes do casamento de respeitar a religião do outro, deixando a liberdade para os filhos de optarem por qual crença seguir.

Trouxeram consigo, tanto Emilie quanto seu marido, objetos, artefatos – Livro Sagrado, tapetes, imagens de santo – além de repetirem, mesmo que com certos traços do novo contexto cultural em que estavam inseridos, os rituais aprendidos na terra de sua infância, a nação imaginada da qual, mesmo distantes, reverenciavam. Os rituais e os objetos materiais aliados a suas lembranças tentam manter viva a tradição cultural a que se sentiam ligados. Reconstruíam em outro espaço, muito distante daquele onde haviam nascido, a cultura que os havia formado. Mas o contato, o diálogo, o entrecruzamento e também o choque com outros costumes, tradições e histórias, enfim, com diferentes culturas, acabam por transformar/modificar a sua própria cultura. A descrição feita dos preparativos para o Natal pontuam bem esse aspecto:

 

O teto da sala estava coberto de balões furta-cores, e por toda a casa se espalhavam bolas de sumaúma enroladas em papel crepom, que encerravam caixinhas com caramelos e chocolates recheados de castanha. Eram tantos objetos coloridos que reluziam dentro e fora das vitrinas que a festa de natal lembrava os preparativos carnavalescos; só faltavam as máscaras e fantasias para a ceia religiosa tornar-se uma festa pagã (Ibidem, p.38).

 

A festa de Natal na nova terra adquiria ares de preparação carnavalesca, dado a presença das muitas cores, danças, enfeites e música, portanto, uma festa religiosa cristã se mescla com uma festa pagã – o carnaval, próprio da cultura em que se estavam inserindo. Esse processo de transculturação acontece, de acordo com Todorov (1999, p.26) à medida que se dá “a aquisição de um novo código sem que o antigo tenha se perdido”, pois em nossos dias, vivemos o reencontro de culturas no interior de nós mesmos: “somos todos híbridos.”

Se às vezes esse cruzamento de culturas se dava de maneira pacífica ou então sem fortes tensões, em outras, o choque é violento. Hankim descreve a reação furiosa de seu pai diante da quebra de um costume islamita na forma de matar as aves. Seus pescoços deveriam ser torcidos, passando-se, em seguida, a lâmina no gogó da ave para que todo sangue saísse. Mas em determinado Natal, a matança de galinhas e perus é feita de forma diferenciada: eles são embriagados e tem seu pescoço torcido, e morrem lentamente; o “holocausto” das aves é assistido pelos vizinhos. O pai, islamita, esbraveja, vê seus costumes ultrajados e vocifera: “Esse martírio só pode ser obra de cristãos”. Contrariado com o fato, ele sai de casa e se recusa a participar da festa cristã. O desrespeito é novamente salientado quando a Emilie é perguntado a razão do mau-humor de seu marido e ela responde que “deve ser uma das proibições do Livro, mas hoje quem dita o que pode e não pode sou eu, não um analfabeto guerreiro que se diz Profeta e Iluminado” (Ibidem, p.39).

O marido de Emilie somente aparece no dia seguinte e, desrespeitado, desrespeita crenças da sua mulher: destrói as imagens de santo de gesso e madeira, destroça a imagem de Nossa Senhora da Conceição e do Menino Jesus, somente poupando iluminuras, o oratório de caoba e a imagem de Nossa Senhora do Líbano, o que é sintomático, pois trazidos da terra onde também nascera.

A restauração de objetos sagrados, a tentativa de colar as lascas das imagens dos santos cristãos quebrados, retocando-os com pigmentos e cascas de frutas nativas da Amazônia, enquanto estavam – Emilie e sua amiga Hindié – sentadas sobre um tapete com motivos da criação do mundo na versão muçulmana, pode ser vista como metáfora desse processo de hibridação cultural.

Elas não sabiam (talvez só meu pai soubesse) que naquele tapete onde catavam fragmentos de gesso e estilhaços de madeira para reconstruir as estátuas dos santos, a geometria dos desenhos simbolizava a criação, o sol e a lua, a progressão cósmica no tempo e no espaço, o ciclo das revoluções do tempo terrestre, e a eternidade. E que no centro do tapete, num meio círculo desbotado pelo contato assíduo de um corpo agachado para orar, havia uma caixa ou um cofre que encerra o Livro da Revelação, representado por um pequeno quadrado amarelo (Ibidem, p.44).

Nesse entrecruzamento cultural e, muitas vezes, no entrechoque, o pretenso original de uma cultura e seus símbolos se quebram e se reconstróem com as cores locais. Se no final da tarde de restauração as estatuetas voltaram a seus altares e nichos, elas não eram exatamente as mesmas, se não tinham todas as cores locais, carregavam traços delas.

A paz é restabelecida quando Emilie organiza uma comemoração islamita na casa. Hankim descreve, com um misto de temor e encantamento, o que seus olhos de criança viram:

 

Eu acordava com berros dilacerantes, gemidos terríveis, ruídos de trote e uma algazarra de alimárias que assistiam à agonia dos carneiros que possuíam nomes e eram alimentados pelas mãos de Emilie. Corria até o quarto dos pais e através das frestas dos janelões, via o sangue esguichar do pescoço do animal, cobrir-lhe os olhos ainda abertos, penetrar-lhe nos pêlos alvos e cacheados (Ibidem, p.57).

 

Nessas reuniões de sextas-feiras as crianças não participavam, mas de longe observavam com espanto, como uma “novidade assombrosa” por ser exótica e contrastar com “o ritmo habitual da casa.” Essas reuniões varavam a noite e, às vezes, estendiam-se pela manhã de sábado. Após conversas, “baforadas de narguilé, goles de áraque e lances de gamão”, as pessoas se dirigiam ao pátio onde carneiros eram sacrificados seguindo os costumes ancestrais compartilhados pelos convivas. O fígado do animal era preparado e servido cru aos convivas que, com as mãos, rejubilavam-se. Mas mesmo aí a cor do novo espaço local se fazia presente, pois junto às vísceras cruas, pães e fígados da Índia, eram servidos jenipapos, biribás, abacaxis e melancias, além de pitombas e maracujás do mato. O hábito milenar de comer com as mãos o fígado cru de carneiro se encontra misturado com as frutas tropicais da terra nova que acolheu esses migrantes. E a conversa em árabe era entrecruzada por vozes de outros estrangeiros que eventualmente visitavam ou passavam pela casa nessa ocasiões – o alemão Dorner, a família marroquina, o português Américo, e a presença silenciosa e espantada da nativa Anastácia.

Uma negociação entre culturas que, se por um lado, pressupõe a diferença entre o eu e o outro, por outro lado requer um quadro comum, a vontade de compreender o diferente e comunicar-se com ele.

 

Entre o Rio e a Floresta: A Cidade-Mundo se Recria.

 

O romance inicia com a narradora abrindo os olhos e vendo, a sua frente, o vulto de uma mulher e de uma criança, inertes diante dela. A referência é direta às personagens Emilie e a criança Soraya, que vão ser resgatadas pela memória desordenada da narradora, e cujas vidas foram fundamentais para traçar a sua própria até então. Elas podem ser vistas como a dupla face do mesmo: o silêncio e a fala. A menina muda e a mulher forte a comandar a vida e o destino de uma família oriental, vivendo num país estranho, entre os encantos e a magia da floresta e o ambiente híbrido de uma cidade a condensar as mais diferentes gentes e suas culturas, com suas histórias, costumes e vivências.

Na busca por si mesma, quer falar, quer contar sua vida, desde sua infância, quer encontrar-se. Dá voz a si, mas também a vários outros com os quais conviveu e que, muitas vezes, por ela falaram. É um falar descontínuo, desconexo, misturando tempos, num fluxo de memória, como se suas lembranças por tanto caladas, jorrassem sem freio. Um caudal de vida sem controle. A voz por tanto calada se quer fazer ouvir, se quer liberta. E somente o consegue quando volta a sua terra natal, revê seus fantasmas, caminha pelos antigos trajetos, reencontra velhos conhecidos.

Talvez o sufoco de não ser, de não saber quem era, a faz viajar, distanciar-se dos seus, não tão seus assim, afinal, fora criada por Emilie e seu marido, mas a atenção de ambos se concentrava no irmão e nos próprios filhos. Os outros falavam por ela. Adoece, enlouquece, precisa se tratar. Mas mesmo quando pretensamente está curada, prefere ficar em meio aos “loucos”, afinal o que de bom a espera lá fora? Um pai de quem nunca ouvira falar, a mãe cuja ausência é a única lembrança que guarda, um irmão em Barcelona, sua família improvisada e desmantelada?

Com a morte de Emilie, a que fala e cuja presença, se lhe é fundamental, é também sufocante, o passado volta e exige ser recontado. Tantas coisas vivera, tantas histórias ouvira, tantas vozes a contá-las, mas sua voz vai se impondo, qual um “pássaro gigante”, mas “frágil”, planando sobre as outras vozes.

A narradora, na busca de si mesma, retorna a Manaus, cidade imaginária aos olhos da infância, reencontra sua memória familiar e resgata as vozes dispersas de sua meninice e se atreve a falar, a contar, a recriar seu passado, vivido numa cidade-mundo em que se condensam, hibridam e disseminam identidades, nações, religiões, costumes e culturas; uma cidade incrustada entre o rio e a floresta, que mesmo distante dos centros irradiadores de cultura, se constrói envolta pela diversidade. Cidade-porto que acolhe desde o nativo-curandeiro vindo da floresta amazônica ao médico de formação inglesa, os irmãos sicilianos, a criada (ou seria escrava) Anastácia Socorro, o tio libanês – tomado pela melancolia de um amor além-mar – , os muçulmanos e os católicos maronitas, o português, o francês e o libanês: a cidade-porto, povoada de vozes, tempos e espaços múltiplos. Enfim a cidade de Manaus torna-se o local da reunião de povos migrantes, vindos de diversos lugares, sejam países, seja do interior da floresta ou de outros pontos do Brasil. Ela oferece o espaço para viver a cultura, as diferentes culturas e recriá-las pelo contato mútuo. No dizer de Bhabha, a cidade transforma-se no espaço de disseminação, em que se reúnem povos dispersos, com seus mitos, fantasias e experiências. Local apropriado para viver a cultura resultante desse diálogo entre várias culturas, ou, às vezes, de seu entrechoque. Manaus é palco de uma disseminação de vozes, culturas e costumes, local em que nativos e vários estrangeiros se encontram, dialogam, entram em conflito, entrecruzam-se, recriam-se e recriam suas identidades.

A identidade no romance é mostrada enquanto busca, um perder-se nos labirintos de vivências e experiências, mediada pela linguagem e pela memória. A linguagem materializa os sinais da memória, fisgando cenas do passado, dando a senha para a busca de uma identidade, até então disforme.

O entrecruzamento do diverso, das identidades culturais provindas de muitos locus (Oriente, Europa, sul do Brasil, Amazônia, portos, floresta...) habitam a narradora que, pelo construção do relato, busca dar uma articulação ao seu mundo, entendê-lo e entender-se; criar um “eu” não único, mas diverso, sem limites precisos a distingui-la do outro, pois esse outro parece já fazer parte dela própria. Processo criativo, mas sofrido, signo desses tempos sem certezas, sem respostas prontas e fechadas; tempos de indecisão e questionamento pois os caminhos-identidades não estão dados de antemão, mas, mesmo que de forma cambaleante e sinuosa, vão-se construindo entre certos orientes e incertos ocidentes, entre o global e o local, entre a desnacionalização e a disseminação, entre o silêncio e a fala...

 

Por Fim, o Poder das Mil e Uma Palavras.

 

A força da palavra falada ou escrita é resgatada no romance em questão. Torna-se clara no diálogo que se percebe entre Relato de um certo oriente e as Mil e uma noites[3]. Além da referência explícita feita em relação as histórias contadas pelo pai-avô, podemos perceber o diálogo com esse relato oriental em outros pontos do romance de Hatoum. Por exemplo, quando ele apresenta a relação estabelecida entre Anastácia, a empregada vinda do interior da floresta, e Emilie, a estrangeira vinda do além-mar. Enquanto bordavam e costuravam juntas, na sala, uma relatava a outra, intermediadas por Hankim, suas histórias e relatos. Emilie com suas lembranças do Líbano: locais, pessoas, imagens, acontecimentos... Anastácia, instigada por Hankim, evocava suas vivências e sua imaginação: apresentava o mundo misterioso da floresta, e mais do que isso, o mundo misterioso de uma mulher que falava horas a fio como que para se poupar, repousar de seu trabalho estafante. Enquanto relatava, repousava; prorrogava o quanto mais podia suas histórias, tal qual Sheherazade, senão para impedir a morte, como a “heroína” oriental, pelo menos para amainar a vida e torná-la mais suportável, servindo como a senha para ser aceita por essa mulher estrangeira com sua cultura distinta, e por sua família.

Pode-se perceber uma afiliação entre o romance e a história de Sheherazade. Em Mil e uma noites a literatura salva a heroína, pois a narração de infinitas histórias impede que o sultão a mate, e mais que isso, liberta-a dessa sina e também liberta tantas outras mulheres que teriam seu destino selado após a noite passada com o sultão. No romance de Hatoum o relato parece apresentar-se como a forma encontrada pela narradora para recompor-se, encontrar-se, construir sua identidade, sua história. Diferente da personagem oriental, apresentada como alguém corajosa, forte e que, com sua memória e inteligência prodigiosa, libertou-se da morte, nossa narradora parece combalida e necessita do auxílio de outras vozes para relatar/recompor as histórias. Em ambos os relatos, a força da palavra é tanta que permite às narradoras, mesmo que em contextos e por razões distintas, continuar vivendo.

              No decorrer da narração, alguns acontecimentos e personagens se apresentam de forma obscura, por exemplo, como se deu a morte da pequena Soraya, quem é a mãe da narradora, porque esta e seu irmão foram criados por Emilie.... A memória da infância retém algumas informações e outras esquece, ou, melhor, armazena no inconsciente, especialmente as que fazem sofrer. Ao final do romance, já como sinal da sua incipiente reestruturação pessoal, mesmo restando aspectos incompreendidos, conseguimos juntar os pedaços do mosaico e temos uma imagem mais clara da narradora e de suas memórias.

A narradora dá a chave para esse esclarecimento quando explicita a forma como suas narrações foram sendo construídas. A necessidade de quebrar o silêncio e libertar-se já estavam presentes quando resolve deixar Manaus, Emilie e seu passado, viajando para o sul. Mas essa primeira viagem resulta infrutífera, pois ela acaba internada numa clínica, possivelmente de desequilibrados mentais, onde, mesmo trancada em seu quarto, “guardava as cicatrizes do desespero e da impaciência para sobreviver”. Dilacerada, impaciente, desesperada, encontra na viagem da memória a saída.

Lá mesmo, na clínica, resolve organizar um relato, sem forma definida, em que cada frase evocava um assunto diferente, mesclando fragmentos de cartas recebidas, sonhos, seu diário... Acaba por rasgá-lo e com os pedaços de papéis faz uma montagem, colando-os junto a lenços bordados com motivos abstratos, o que acaba por tomar a forma de um rosto informe, estilhaçado: ela própria. Somente a viagem de retorno à cidade de sua infância e a partir da morte de Emilie, ente querido e tão forte, que parecia ofuscar a fala dos demais, possibilita-lhe embarcar numa viagem pela memória, pelo imaginário, e escrever, falar. Junta às suas memórias as de outras pessoas. Sua voz e outras vozes vão construindo o relato. Recolhe as falas, gravando-as e depois rescrevendo-os em forma de carta para seu irmão em Barcelona. As vozes são encadeadas em uma narração construída de forma desordenada, modulada pelo acaso. A narradora se faz finalmente ouvir, planando “como um pássaro gigante e frágil sobre as outras vozes”. Como uma navegante em busca de algum porto, a narradora se lança no mar da memória, vai acompanhada pelas vozes dos outros captadas por ela, em busca de um porto senão seguro, pelo menos em que se sentisse acolhida, em casa.

São tantas vozes que lhe habitam e são tantas culturas que nela co-habitam que a narradora se apresenta em crise identitária, não sabe quem é, não consegue delinear-se, não tem nome. Ela pode ser vista como a própria metáfora de uma identidade em tempo de incertezas, de reconstrução, como o que vivemos. Metáfora de uma identidade que poderia ser chamada de pós-moderna, em que as linhas mestras, os limites precisos são questionados e se desvanecem.

A aceitação de uma identidade fluida, não mais contida nos limites de uma família, de uma cidade ou de uma nação não é um processo fácil. É doloroso caminhar por caminhos desconhecidos e móveis, quando até então as certezas eram a pedra de toque. A narradora do romance é a própria metáfora dessa processo de formação de novas identidades diante de uma sociedade em que global e local se interrelacionam, em que a hibridação e a transculturação são a moeda corrente, em que o próprio e o alheio perdem seus limites anteriormente fixados. Não que os limites deixem de existir, eles continuam, mas não mais como barreiras a impedir a passagem, e sim como pontes a possibilitar o contato. Os limites identitários ou nacionais passam a ser construídos de forma mais aberta e abrangente, com todos os perigos, medos e angústias que daí decorrem.

Esse é o melhor processo? Seria o único? Como saber visto que as certezas não fazem mais parte de nosso dia-a-dia? Aonde vamos chegar? Respostas prontas, não se tem. Parece que todos estamos, como a narradora, à procura. Em meio a muitas viagens e vozes, culturas diversas e híbridas, buscamos construir esse novo que se apresenta de forma incipiente e nebulosa. Parece que, como a narradora, que chega ao fim do relato ainda sem nome, já conseguimos pelo menos falar, lançar nossa voz, mas continuamos em busca.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política.São Paulo: Brasiliense, 1993. Obras escolhidas. Vol.1.

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

HALL, Stuart. Identidade culturais na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1997.

HATOUM, Milton. Relato de um certo oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

__________. “Escrever à margem da história.”In: Remates dos Males, Campinas, n.7, 1994, p. 10-12. (Revista do Departamento de Teoria Literária – UNICAMP.)

MENEZES, Adélia Bezerra de. “Do poder da palavra”, Remates dos Males, Campinas, n.14, p.115-124, 1987. (Revista do Departamento de Teoria Literária – UNICAMP.)

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia da Letras, 1990.

TODOROV, Tzvetan. O homem desenraizado. Rio de Janeiro: Record, 1999.



[1] Mestre em Sociologia pela UFRGS e doutorando em Literatura Comparada pela UFRJ.

[2] Conforme classificação de Walter Benjamin (1993) em seu texto O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov.

[3] Ver análise dessa obra feita por Adélia Bezerra de Meneses (1987).